terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Mais um Amanhecer apresenta-se como uma obra híbrida, situada entre a poesia, a música e o discurso social, estruturada em forma de coletânea lírica. Michel F.M. constrói um livro que ultrapassa os limites tradicionais da poesia escrita, aproximando-se da estética da canção popular e da oralidade urbana, criando um texto acessível, direto e emocionalmente comunicativo.


(Resenha Crítica)

Obra: Mais um Amanhecer
Autor: Michel F.M.
Gênero: Poesia / Canção poética / Prosa poética
Ano: 2010

Introdução

Mais um Amanhecer apresenta-se como uma obra híbrida, situada entre a poesia, a música e o discurso social, estruturada em forma de coletânea lírica. Michel F.M. constrói um livro que ultrapassa os limites tradicionais da poesia escrita, aproximando-se da estética da canção popular e da oralidade urbana, criando um texto acessível, direto e emocionalmente comunicativo. A obra se organiza em três blocos — Um Amanhecer Romântico, Um Amanhecer Crítico e Mais um Amanhecer — que funcionam como etapas de um percurso existencial, emocional e ético.

Desenvolvimento

Na primeira parte, Um Amanhecer Romântico, predomina uma poética afetiva centrada no amor idealizado, na dependência emocional e na construção do outro como eixo existencial do eu-lírico. 

O discurso poético é marcado por simplicidade lexical, repetições, estruturas próximas da letra musical e imagens simbólicas recorrentes (luz, flor, olhar, céu, estrela, estrada). O amor é apresentado não apenas como sentimento, mas como fundamento identitário, o que revela uma concepção romântica clássica: amar é existir. Embora essa abordagem possa parecer ingênua sob uma perspectiva crítica mais sofisticada, ela se sustenta pela honestidade emocional e pela coerência estética da proposta.

A transição para Um Amanhecer Crítico representa uma ruptura temática e discursiva. O eu-lírico abandona o foco individual e assume uma voz coletiva, social e política. A poesia torna-se instrumento de denúncia, abordando desigualdade, corrupção, alienação, manipulação midiática, degradação ambiental, violência estrutural e desumanização. O tom passa a ser mais duro, direto e discursivo, aproximando-se da poesia engajada e da tradição da canção de protesto. Nessa parte, a função estética do texto subordina-se frequentemente à função ética e social, o que reforça o caráter pedagógico e conscientizador da obra.

Na terceira parte, Mais um Amanhecer, ocorre uma síntese entre subjetividade e coletividade. O discurso se reorganiza em torno de valores como superação, espiritualidade, esperança, perdão, transformação e responsabilidade humana. O sujeito poético deixa de ser apenas amante ou cidadão revoltado e passa a ocupar o lugar do indivíduo consciente, que reconhece sua dimensão interior, social e espiritual. O “amanhecer” assume aqui sua função simbólica plena: não é apenas recomeço emocional ou despertar político, mas um processo de iluminação existencial.

Análise Crítica

Do ponto de vista estético, a obra privilegia a acessibilidade em detrimento da complexidade formal. Não há preocupação com experimentalismos linguísticos sofisticados ou com estruturas poéticas eruditas. A linguagem é simples, direta, coloquial e musical. Isso pode ser interpretado, por um lado, como limitação técnica, mas, por outro, como escolha consciente de comunicação ampla e democrática. 

Trata-se de uma poesia que busca alcançar, não excluir. Ideologicamente, a obra se insere em uma perspectiva humanista, ética e transformadora. O autor constrói uma visão de mundo baseada na empatia, na consciência social, na responsabilidade coletiva e na espiritualidade não dogmática. O amor, que inicialmente é romântico e individual, transforma-se progressivamente em amor social e, por fim, em amor universal.

O maior mérito de Mais um Amanhecer está na coerência interna de sua proposta: a obra funciona como uma narrativa de formação poética, acompanhando a evolução simbólica do sujeito lírico do afeto à consciência, da emoção à ética, da paixão à responsabilidade. Trata-se de um percurso de amadurecimento humano, não apenas literário.

Como fragilidade, pode-se apontar o caráter por vezes excessivamente discursivo e didático de alguns poemas, especialmente na parte crítica, em que o tom panfletário se sobrepõe à elaboração estética. No entanto, essa escolha se justifica dentro da proposta da obra, que privilegia função social e comunicativa em vez de refinamento formal.

Conclusão

Mais um Amanhecer é uma obra de formação humana em forma de poesia. Mais do que um livro lírico, trata-se de um projeto ético, social e existencial. Michel F.M. constrói uma poética acessível, musical e emocionalmente honesta, que acompanha a transformação do sujeito poético do amor individual ao compromisso coletivo, e da dor pessoal à consciência social.

Não é uma obra voltada à elite literária, mas ao leitor comum, ao jovem, ao cidadão, ao ser humano em processo de construção. Seu valor reside menos na sofisticação formal e mais na potência simbólica, na coerência temática e na força humanista de sua mensagem.

Mais um Amanhecer não pretende ser apenas lido — pretende ser vivido, sentido e refletido.